segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Era uma quarta-feira, esse dia que pelo menos para a maioria dos homens brasileiros significa: esperar a noite pra tomar uma cerveja e assistir o futebol na TV. Assim nos preparávamos, Laerte, Fábio e eu.

Encontramos-nos pouco depois das 18h, na frente do Zaffari, pra fazermos as compras do apartamento que dividíamos, e claro, pegar o maior número de cervejas que nossos orçamentos pífios de assalariados permitia. Entramos no supermercado e logo nos dividimos para comprar nossos suprimentos, combinando que o ponto de encontro seria o freezer de Heinecken’s. Laerte e Fábio chegaram ao freezer quando eu já tinha carregado o carrinho com cervejas geladas, e então começamos a observar qual operadora de caixa seria nossa cobaia, ouvindo o maior número de cantadas por minuto de atendimento em um caixa de supermercado. De longe eu vi a Márcia, uma operadora de caixa que eu conhecia, por que sempre era vítma de um amor que eu inventava ao ver aqueles olhos azuis e aquele cabelo castanho com luzes meio apagadas. Ao lado do caixa de Márcia, a fila era infinitamente menor, mas, pra nós pouco importava, a moça era desprovida de talento, a Márcia era quem sabia como pegar a mercadoria, passar na leitora, cobrar o valor, e no final pedir com voz de veludo:

- O Senhor gostaria de doar DOIS centavos para a Santa Casa?

- Por ti, e por essas córneas azuis, eu doaria meu coração a qualquer necessitado da Santa Casa, do HPS, do Cristo Redentor... Respondi.

É claro que a trova esdrúxula chamou a atenção de todos, inclusive do guri que empacotava tudo com uma raiva que demonstrava o quanto amava seu trabalho, e o quanto devia ser bem pago pra socar todas as compras no maior número de sacolas possíveis, pra que seus chefes tivessem prejuízo pelo menos nisso, na embalagem.

A Márcia fez uma cara de que não entendeu, e eu ia-me por a explicá-la o que eram córneas quando o Fábio me puxou pelo braço, e fomos embora rindo da situação.

O assunto até o apartamento foi futebol, naturalmente, e caminhamos distraídos por toda a Duque de Caxias, enquanto discutíamos os resultados dos jogos da noite.

Foi só quando tirava as compras daquele número absurdo de sacolas que percebi algo estarrecedor: eu tinha perdido o presunto.

Sim, tinha perdido minhas 250 gramas de presunto Sadia, que eu pedi com um ar de galã de novela para a loirinha do mercado. Era aterrorizante: quase três reais de presunto desperdiçados, e a certeza de que alguma sacanagem tinha sido feita comigo.

Depois de consultar todas as sacolas, eu fiz o que talvez ninguém fizesse, fui atrás do presunto. Ninguém mensuraria o que são 250 gramas de presunto perdidos para aquele apartamento. Significava refeições noturnas sem seu equivalente de carne por uma semana! Não! Eu é que não ia perder meu presuntinho... Sabia que alguma coisa tinha naquilo e possivelmente o guri da sacola era o culpado.

Refiz o caminho. Era óbvio que na rua eu não encontraria o presunto, ou porque as benditas sacolas não estavam furadas, ou porque caso estivessem, mendigos ou pombos teriam apreciado meu composto de carne suína como se fosse filé.

Entrei no mercado enfurecido e me dirigi logo ao empacotador pivô de toda confusão. O rapaz do cabelo espetado e com um relógio prata no pulso, bem no caixa da Márcia. Minha pergunta não podia ser outra:

- Meu presunto, cadê?

- Não sei senhor. – Ele disse. Aliás, eu não esperava mais do que isso, inclusive achava que ao invés de senhor ele fosse me chamar de qualquer outro adjetivo malandro que exista.

- Então tu me fazes o favor de chamar o gerente, por que quero saber do meu presunto.

A essas alturas a Márcia me interrogava com o azul oceânico de seus olhos, e eu por um momento esqueci toda raiva, mergulhando naqueles olhos e nadando pelas mechas loiras mal feitas do cabelo dela.

- Pois não senhor? Interrompia-me o gerente de um metro e trinta e cinco.

- Comprei um presunto aqui, faz meia hora, e acho que esse guri aí, o da sacola, me passou a perna. Quero 250 gramas de presunto.

- Acalme-se senhor.

- Calma me sobra, me falta é presunto. Fala com teu funcionário aí e vê se ele dá jeito. Quero meus 250 Gramas de presunto sadia. Peguei com a loirinha lá atrás, e ele deve ter enfiado em algum lugar.

Passaram-se alguns minutos até que o gerente atinasse de que a única forma de eu provar que realmente tinha comprado presunto era mostrando o cupom fiscal. Era óbvio demais. E eu, mal alimentado e com raiva – e ainda por cima, a Márcia... – esqueci desse pequeno detalhe. Revirei o bolso atrás do papel, e quando encontrei o comprovante das minhas compras, passei os olhos, item por item: pão, cerveja, uma caixinha de bis, duas laranjas, um tang de manga com tangerina, um mamão papaia, uma bola, um tapete pro banheiro, uma chaleira nova. NADA. Não tinha presunto nenhum.

Não sei quem estava mais satisfeito, se era o guri da sacola, se era o gerente, ou se era eu. Não ter perdido o presunto siginificava ter que fazer tudo de novo: Fila dos frios, a loira pesando e as córneas da Márcia... ah que córneas...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

das barreiras que eu já rompi,
das noites que eu me perdi,
do dinheiro que gastei, e que mesquinho fui.
nada mais me invade.

soa algo dentro, e fica ecoando,
ecoando intensamente dentro dos meus pensamentos,
são barreiras que eu ainda não rompi,
são noites que eu ainda não encontrei.