O cara que tomava banho demais - parte III.
“Um tempo”. Foi isso que Sophia pediu a Cezar, um ano e quatro meses após terem começado o namoro. O casal que parecia tão perfeito aos olhos do mundo, tinha um problema grave. Sophia não podia mais continuar comendo cabelo, no sentido mais literal possível, e não queria mais que os dois brigassem. Foi complicado dizer a Cezar que os dois acabariam por ali uma história que construíram juntos, e que era de fato bonita. Mas Sophia decidiu-se, e acabou o namoro. Cezar por sua vez, não entendia. Achava que muito pior seria, se ele nunca se banhasse. E mesmo que tentasse diminuir seus banhos diários, se sentia muito mal. Pensou em conversar com Sophia, mas seu orgulho o fez ir pra casa, ouvir música. Sabia que sua, agora, ex-namorada não estaria em casa em uma sexta-feira à noite.
Bruno Andrade, pai de Cezar, entrou no quarto do filho. Em cinco minutos de conversa, Cezar pode perceber que, não era só ele que tinha manias estranhas. O pai repetia todas as palavras que dizia, em voz baixa, logo após terminar cada frase. Era como se ele calculasse se o que falou estava certo.
- Não se preocupe meu filho – não, se, preocupe, meu filho, repetia Bruno em voz baixa, quase sussurrando. – Sophia vai repensar suas escolhas, e vai ver que tu és um bom rapaz – Sophia, vai, repensar, suas, escolhas, e vai, ver, que, tu, és, um, bom, rapaz, - de novo, ele calculava as palavras.
Cezar nunca tinha notado essa estranha mania do pai. O agradeceu pelo apoio, sem deixar de notar que ele continuava calculando as palavras que dizia. Menos mal que o pai era engenheiro, gostava mais de números, talvez por isso calculasse até as palavras.
Quando se pôs a pensar de novo, sozinho no quarto, lembrou-se de que todos tinham manias. Sua mãe, por exemplo: adorava misturar doces e salgados. Mortadela com geléia de morango, cuca com cebola, ou o misto quente, recheado de queijo e doce-de-leite.
Seu cachorro, Thor, tinha as quatro patas perfeitas, mas, estranhamente usava só três. Uma das patas traseiras ficava sempre levantada, como se estivesse quebrada. Mas não estava. Thor é que tinha essa mania estranha.
Todos tinham manias. Cezar não entendia porque Sophia irritava-se tanto com o fato de ele querer estar limpo! Mas, decidiu que tentaria ao menos diminuir a quantidade, e esperaria por um arrependimento de Sophia. Enquanto isso, Cezar adquiriu outra mania, menos estranha:
Ele estava sempre sozinho.